A Hospedaria

▼ A Grande Imigração

Hospedaria de Imigrantes das Flores. Ao centro, pavilhão principal. À direita, depósito de bagagens. À esquerda, lavanderia. Fonte: FERREIRA, Felix. A província do Rio de Janeiro. Noticias para o emigrante. Rio de Janeiro: Imprensa a vapor H. Lombaerts & Comp., 1888.

Nas últimas décadas do século XIX, o fluxo migratório internacional intensificou-se, atingindo o seu auge nas primeiras décadas do século XX. Estima-se que durante o período de 1880 a 1915, cerca de 31 milhões de europeus se deslocaram pelo continente a fim de alcançar um dos portos que permitissem o embarque num vapor rumo as Américas. Muitos foram os motivos que geraram os deslocamentos populacionais, como o desenvolvimento do capitalismo, o acentuado aumento da população rural e a forte depressão agrícola.

Do outro lado do Atlântico, o governo brasileiro procurou atrair uma parcela significativa da população migrante. Em primeiro lugar, para promover a colonização dos territórios que ainda não haviam sido povoados, em segundo lugar, para viabilizar o trabalho nas grandes fazendas de café, pois, com a expansão da economia cafeeira houve uma maior necessidade de mão-de-obra.

O século XIX foi marcado por duas formas de ingresso da mão de obra imigrante no Brasil. Um significativo grupo participou da imigração “dirigida”, ou seja, foram arregimentados na Europa com destino às propriedades agro-exportadoras. Muitos tinham suas passagens pagas e contratos pré-fixados com estes proprietários. Outra forma era a imigração espontânea estimulada pela administração imperial, pois a esses se destinavam terras públicas que serviriam para colonização.

Imigrantes próximos aos alojamentos da Ala Sul. Ilha das Flores. 7 de julho de 1930. Correio da Manhã. Arquivo Nacional.

O imigrante era considerado elemento primordial no processo de transição do trabalho escravo para o livre. O importante era que não faltassem braços para a grande lavoura, sustentáculo da política econômica do período. Por outro lado projetava-se, nesse grupo, uma ação civilizadora ao se defender um processo de miscigenação que levasse ao embraquecimento da população brasileira

A imigração europeia significou mais do que uma solução para o problema de mão-de-obra. Sem dúvida ela resultou de mudanças econômicas e sociais, mas também de transformações culturais e mentais de uma sociedade influenciada por teorias cientificistas, como o determinismo e o evolucionismo.

Em 1883, a Inspetoria Geral de Terras e Colonização adquiriu, pelo valor de 170:000$000, a Ilha das Flores e duas contíguas, pertencentes ao senador José Ignácio Silveira da Motta. Com a construção de um grande galpão, capaz de abrigar comodamente 1.000 indivíduos de uma só vez, a Ilha das Flores se converteu em local de registro, de controle médico-sanitário e de encaminhamento dos imigrantes para o lugar de destino. Desse modo, em termos de logística, a criação da Hospedaria da Ilha das Flores foi a política imigratória mais importante do governo imperial, pois, a partir da sua instauração, o Estado passou a regular os serviços de recepção e hospedagem dos imigrantes.

▼ A Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores

Desembarque de imigrantes na Hospedaria. Ilha das Flores. Primeira metade do século XX. Acervo Centro de Memória da Ilha das Flores. Coleção Leopoldino Brasil.

Ainda que houvessem incentivos para estrangeiros que se estabelecem no Brasil, o movimento de entrada de imigrantes não atendia as expectativas do governo imperial durante a década de 1870. A principal razão para o Brasil não obter o resultado desejado estava na insalubridade da capital do Império, noticiada constantemente tanto pela imprensa nacional quanto pela estrangeira.

As condições sanitárias do Rio de Janeiro do século XIX causaram uma série de embaraços a atividade comercial e na necessidade de se encontrar outras formas de trabalho. Em 1881, sob o argumento de que em épocas de epidemia a recepção de imigrantes na cidade do Rio de Janeiro exigia “conveniências da saúde pública”, o governo imperial autorizou a construção de um edifício adequado à recepção de imigrantes, em condições de comportar o movimento anual de 30 mil indivíduos.

Foi com este objetivo que a Inspetoria Geral de Terras e Colonização adquiriu a Ilha das Flores, estabelecendo ali uma hospedaria adequada para receber os imigrantes recém-chegados, impedindo-os de manter contato com a população da Corte e, principalmente, com as suas constantes epidemias.

Em 01 de março de 1883, o ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Afonso Augusto Moreira Penna, ordenou que depois de desembarcar no Porto do Rio de Janeiro, todos os passageiros vindos de portos estrangeiros em 3ª classe deveriam ser imediatamente transportados, com as suas respectivas bagagens, até a Ilha das Flores, onde seriam acolhidos gratuitamente até o máximo de oito dias.


Desembarque de visitantes na Hospedaria de Imigrantes. Ilha das Flores. Sem data. Autor desconhecido. Coleção Leopoldino Brasil.

Após o desembarque na Ilha, os imigrantes eram imediatamente alojados nos dormitórios. Posteriormente, todos eram encaminhados para o Escritório da Diretoria, onde o escrivão realizava o registro dos imigrantes em livros, nos quais se anotavam a procedência, o nome do navio, a data de entrada, o número de ordem, o nome, a idade, o estado civil, a nacionalidade e a profissão de cada um.

Após o registro, os imigrantes passavam pelo consultório médico a fim de verificar o seu estado de saúde, prevenindo assim a entrada de doenças infectocontagiosas. Durante um grande período os alojamentos da hospedaria foram divididos de acordo com o gênero e o estado civil dos imigrantes. Desse modo, havia dormitórios para os jovens solteiros, os homens casados, as moças solteiras e as mulheres casadas com filhos pequenos. Devidamente acomodados, os imigrantes passavam por mais um momento de dificuldades, a adaptação à comida brasileira. A cozinha e o refeitório estavam instalados em um edifício contiguo a hospedaria.

A Ilha das Flores apresentava uma estrutura bem moderna para a época. Além de sistema de captação da água da chuva, havia tanques biológicos responsáveis pelo tratamento de dejetos a fim de que estes não poluíssem a Baía da Guanabara. No ano de 1907, diversos edifícios foram demolidos, pois sua estrutura de madeira estava em precário estado de conservação. Para substituí-los foram construídos na ala norte novos pavilhões, nas melhores condições de higiene e conforto. Os novos pavilhões possuíam 124m de comprimento por 12m de largura, circundados por varandas laterais. Internamente eram divididos em grandes quartos, mobilhados com beliches de ferro. Atualmente, esses edifícios encontram-se preservados e fazem parte do Circuito a Céu Aberto.

▼ A Hospedaria e seus funcionários

Recepção de imigrantes. Sentado, ao centro, João Martins de Almeida, diretor da Hospedaria entre 1939 e 1948. Ao seu lado esquerdo, em pé, Leopoldino Brasil. Ilha das Flores. Acervo Centro de Memória da Ilha das Flores. Coleção Leopoldino Brasil.

Para fazer funcionar um lugar, que poderia ser ocupado por mais de mil pessoas, com prédios, áreas verdes, sistema de transporte era necessário um grupo de funcionários residentes ou não que, desempenhavam uma série de atividades que começavam ainda de madrugada, seguiam pelo dia e terminavam a noite. Dia após dia da semana quando preciso, estas atividades envolviam cuidados com a alimentação, saúde, limpeza e uma infinidade de ações para promover o bom funcionamento do lugar e alcançar os objetivos necessários ao processo de deslocamentos, assistência social e de política nacional.

Os funcionários desempenhavam as mais diversas funções na ilha, como cozinheiro(a), caldeireiro, faxineiro, médico, intérprete, farmacêutico, eletricista, enfermeira, professores, dentre outras, e mantinham no lugar, além da relação de trabalho, o convívio comunitário, práticas de lazer, religiosas e de educação.

O diretor da Hospedaria de Imigrantes respondia pela organização dos documentos de registro, pelo cumprimento das normas de administração do ministério a qual a instituição estava ligada, organizava os trabalhos, produzindo relatórios e petições, administrava a compra dos mantimentos necessários e cuidava do asseio do lugar (limpeza e manutenção dos prédios).

A estrutura de saúde fazia necessário que um médico, um farmacêutico e enfermeiros residissem na ilha para qualquer eventualidade que ocorresse e seus locais de oficio e suas residências ainda fazem parte da paisagem.

▼ O Pós- Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra Mundial representou importante marco nas relações internacionais por uma série de fatores como por exemplo a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e a defesa da dignidade humana. O término do conflito deixou profundas marcas por todo continente europeu, cidades totalmente destruídas, famílias despedaçadas, lavouras destruídas, e a fome. Essa situação promoveu um amplo debate sobre a questão da convivência entre os povos. Seu desfecho e a configuração de uma nova geopolítica internacional proporcionaram um outro contingente imigratório: os refugiados de guerra. Estes eram expatriados pelo conflito ou opositores do controle sócio-político das novas potencias mundiais: EUA e URSS.

No interior da ONU, foram criados órgãos para atender a demanda das pessoas refugiadas e deslocadas. O primeiro órgão criado foi a Administração das Nações Unidas para o Auxílio e Restabelecimento (ANUAR), criada em novembro de 1943, que visava coordenar programas de repatriamento das pessoas que se encontravam fora de seus países. O processo de repatriamento se pautava por seu caráter voluntário, porém, com o desenvolvimento dos trabalhos algumas nacionalidades, sobretudo do Leste Europeu sob influência da URSS, apresentaram crescentes objeções ao retorno a seus países. Tinha-se então “milhão restante” de refugiados que se encontravam nos campos da Europa, e recusavam- se a regressar aos seus países de origem. Para tanto, objetivando dar prosseguimento aos trabalhos foi criada em 1947 a Organização Internacional para Refugiados (OIR). Sob sua responsabilidade encontravam-se cerca de 1,279,000 pessoas.

O Brasil se envolveu com a OIR desde as primeiras reuniões onde se efetivaria sua constituição, tais encontros foram registrados sob a sigla do Comitê Especial de Refugiados e Deslocados de Guerra. Já em fins do ano de 1946, o então presidente da República, Eurico Gaspar Dutra enviou três comissões de seleção para o continente europeu.

Entre 1946 e 1954, ingressaram no Brasil, e passaram pela Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores, 29 mil deslocados e refugiados. Para atender esse quantitativo, a hospedaria passou por melhorias e reformas em sua estrutura, como por exemplo, a construção do segundo pavimento do alojamento mais antigo da hospedaria, com quartos para famílias.