A Ilha das Flores

▼ Antecedentes históricos

Em uma Carta Topográfica de 1710, a atual Ilha das Flores era denominada Santo Antônio. Por volta de 1770, o Plano de Manuel Vieira Leão registra nomes diferentes do anterior. Era nomeada como Ilha do Martins.

Em princípios do século XIX, a Ilha foi representada sem constar nome nos mapas de Robert Blachford e de William Hewett. Em 1817, O Plano da Cidade do Rio de Janeiro, de José Fernandes Portugal estabeleceu outra nomenclatura: a Ilha das Flores apareceu como Meruhi. Já em 1823, no Plano de Pallière, Ilha das Flores é nomeada Marim.

▼ As Origens do nome atual

Em princípios do século XIX, a Ilha das Flores pertencia a Delfina Felicidade do Nascimento Flores e seria denominada como Marim. É possível que o seu nome atual decorra dessa proprietária, pois o local deveria ser conhecido como a “ilha da D. Flores”. Já em meados dos anos de 1840 as ilhas das Flores, Ananás e Engenho aparecem com esses nomes na Carta de Lamare (1847) o que colabora com a ideia de que com o passar do tempo prevaleceu a atual nomenclatura Ilha das Flores. Em 1834, a ilha passou ao patrimônio da Província do Rio de Janeiro, tendo sido arrematada em 17 de agosto, em “praça de Juízo de Feitos”, por Maria do Leo Antunes.

▼ A Ilha e o Senador

Em 10 de junho de 1857, Francisco José de Brito, procurador de Maria Antunes, concretizou a venda da Ilha das Flores para o Conselheiro e Senador pela província de Goiás, José Ignácio Silveira da Motta, por 4 contos e 700 mil reis.

Ao adquirir a Ilha das Flores, a Mexingueira e Ananás essas últimas em 1862, Silveira da Mota as tornou um lugar de experimentos arrojados. A Comissão do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, responsável pela avaliação das experiências psicultoras que ali se realizavam - informava que o “o terreno da ilha está, em grande parte, inculto; a porção, porém, aproveitada em jardim, horta, pomares e roças mostra a feracidade natural, pelo desenvolvimento e viço do arvoredo e plantações”

Desenvolvia-se ali a criação intensiva de peixes em seis tanques que comportavam até doze mil exemplares. A referida Comissão do Ministério da Agricultura, tendo em vista a crescente demanda de alimentos, gerada pelo crescimento populacional das duas capitais – a Corte e a cidade de Niterói, então capital da província do Rio de Janeiro - avaliava positivamente a experiência que ali se desenvolvia.

▼ A criação da Hospedaria da Ilha das Flores

O governo brasileiro adotou uma série de medidas para promover a imigração. No ano 1876, por exemplo, foi criada a Inspetoria Geral de Terras e Colonização, órgão subordinado ao Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, responsável pela fiscalização e direção de todos os serviços atinentes a imigração e a colonização. Desse modo, entre outras atribuições, coube a referida Inspetoria assegurar ao imigrante hospedagem e transporte gratuito até o lugar que preferisse, dando-lhe plena e completa liberdade de se estabelecer na colônia que escolhesse para sua residência, bem como a garantia de acesso a terra, sementes e instrumentos de trabalho.

Após a visita da Comissão do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, iniciaram-se as negociações entre o senador e o governo do Império para a venda da ilha. Em 14 de novembro de 1878, Silveira da Mota ofereceu uma festa ao ministério do Visconde de Sinimbu onde foi acertada a venda da ilha por 500 contos de réis.

A conclusão da transação ocorreu em 1883 quando, em 16 de janeiro, compareceram, na Diretoria Geral do Contencioso do Tesouro Nacional, o Senador Silveira da Motta e o Conselheiro João Cardoso de Menezes e Souza, procurador fiscal do Tesouro, concretizando a venda do arquipélago por 170 contos de reis. A partir de então deu-se início a construção da Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores.

▼ Outros Usos

Durante o período de atividades da Hospedaria de Imigrantes, a Ilha das Flores teve também outros usos, especialmente o de espaço prisional. Essa situação não era incomum. A Hospedaria de Imigrantes de São Paulo passou pelo mesmo processo.

Em 1917, com a entrada do Brasil na guerra, em nome da Segurança Nacional, a Ilha das Flores foi transferida do Ministério da Agricultura para o da Marinha. Foi também nesse momento que, pela primeira vez, a ilha foi usada como Espaço Prisional, com o recolhimento de tripulantes de navios alemães à ilha.

Em nove de julho de 1932, os paulistas deflagraram um movimento que se queria legalista, defendendo a convocação de uma Assembleia Constituinte. A Revolução Constitucionalista colocou os paulistas contra o governo provisório e se estendeu por cerca de três meses. Durante o conflito o então diretor da Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores, Coronel Valêncio de Oliveira Xavier, recebeu um telefonema do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, ordenando a preparação do espaço para que recebesse uma leva de insurgentes paulistas. Em menos de três meses – entre 18 de agosto e 31 de outubro – passaram pelo local 3780 combatentes, segundo Agenor Lopes de Oliveira, diretor do hospital prisional.

Três anos depois, 1935, a ilha voltou a dividir seu espaço para ser usada como presídio para internar os prisioneiros da Intentona Comunista, ocorrida em novembro daquele ano. Sargentos, cabos e soldados de bases em Natal, Recife e Rio de Janeiro sublevaram-se contra o governo Vargas visando instaurar um governo popular.

O novo conflito mundial deflagrado em 1939 diminuiu o afluxo de imigrantes para o país e influiu nas atividades da Hospedaria. O ingresso do Brasil no conflito, em 1942, ao lado das tropas aliadas levou à maior fiscalização daqueles que entravam no país, assim como com os naturais das nações inimigas aqui residentes. A Ilha das Flores, além de abrigar refugiados de guerra, recebeu elementos implicados em ‘quintacolunismo (espionagem)”. A direção do espaço prisional foi acumulada por João de Almeida, então diretor da Hospedaria, que redigiu seu regulamento em 10 de agosto de 1942. No ano de 1942, foram retidas na Ilha das Flores 349 pessoas.

Cessadas as atividades da Hospedaria da Ilha das Flores, em 1966, suas dependências foram utilizadas para a instalação do CENATRE (Centro Nacional de Treinamento), subordinado ao Departamento de Cooperativismo e Extensão Rural do INDA (Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário), visando promover cursos para pessoal técnico, administrativo e líderes rurais.

Ao final de 1968, a Ilha das Flores passa a ser propriedade da Marinha do Brasil que a utiliza para a realização de suas atividades e instalação de Organizações Militares do Corpo de Fuzileiros Navais que perduram até os dias atuais.